terça-feira, 20 de agosto de 2013

O casal dos andares de cima

O verão está a acabar. Eu consigo senti-lo. A música fora de época toca no restaurante de sushi irrita-me. O empregado continua inconsciente da mudança enquanto fecha as conversas inacabadas e limpa as memórias partilhadas. O sol ainda mantém a noite clara que se veste de negro para me lembrar que o verão está a acabar. Tenho os pés em ferida dos sapatos do fato - esses bastardos que também me relembram do fim. A inabalável certeza que este momento chegou podia ser marcada por uma música diferente, mas não, quis o destino que fosse uma voz despida de todo o conteúdo.

Hoje de manhã senti que o sol perdeu a sua intensidade, como quem se prepara para tempos mais relaxados. Os reflexos que resultam dos encontros com os pontos no seu caminho eram pouco caprichados e seguiam momentaneamente desinteressados. Deixou de variar das mil e uma maneiras que sabe que me pode presentear - deve ser para me lembrar que o verão está a acabar.

Durante a tarde percebi que o vento está a recuperar de um verão que escolheu para tirar férias. Faz-me imaginar um miúdo que foi a terra dos avós no verão e agora volta para as brincadeiras da rua dele. Desadequado e perdido do que lhe era conhecido. Passa pelos arbustos ao de leve, faz tangentes mal calculadas às pessoas e não ganha balanço nas paredes com que choca. O vento que durante grande parte do último inverno fazia estas tarefas todas de forma exímia. O verão está a acabar e o vento vai voltar à sua precisão. 

Agora estou aqui. Na varanda que tem que anunciar a todos os meus vizinhos que estou lá fora a fumar um cigarro. Estou perdido neste sentimento de perda do que está para vir, enquanto olho para cima e vejo um homem e uma mulher sentados à conversa. Daqui parece que estão a falar com os olhos, enquanto os braços dele lhe tocam no ombro, levemente. Estão a falar das coisas mais banais das vidas de todos os nós. Deviam estar preocupados com a chegada deste momento, mas continuam nas caricias das conversas intimas que só a eles lhes pertencem. Ela levanta-se para contemplar a noite clara, e ele fica deitado a contemplá-la. Eu estou aqui, tal voyeur desajeitado que apenas se interessa no diálogo. Ele está deitado a vê-la por trás. De certo que na sua imaginação, correm cenários que lhe dirá a imensidão do amor que ela lhe fez encontrar. Devia estar preocupado com a chegada deste momento, mas  continua a observá-la e a sonhar. Beijam-se sem que me aperceba o que se passou entretanto, porque sou assaltado novamente pela certeza que o verão está a acabar. Perdem-se e encontram-se um no outro enquanto as cortinas fecham. 

Continuo aqui. Prefira não sentir que o verão está a acabar. Acho que as estações não devem ser celebradas: 

- Sabias que hoje é o primeiro dia da primavera. 
- Não sabia! Já se nota nas flores. 


Não. Continua igual a ontem, mas diferente do que estava à três meses atrás. Comparativamente a esse dia está diferente. Sim, comparativamente, está claramente diferente. Continua igual a ontem - podia ser o último dia da primavera que eu não teria notado. Contudo o verão está a acabar e eu estou aqui a ponderar nas consequências. Não pedi para participar neste momento. Por mim, uma gaivota podia tomar esta poltrona de omnisciência e ser guardiã das estações. Por mim estava lá em cima: no lugar do casal dos andares de cima.

sexta-feira, 9 de agosto de 2013

A despedida

Era Fevereiro e o sol brilhava. Estava sentado num café, e tinha que decidir se podia abandonar o que tinha por uma aventura, uma descoberta. O cigarro queimava sozinho e a minha frente ideias viajavam como um comboio. Desenfreadas, sem ordem e sem permissão para invadirem a minha cabeça.Gostava de saber se as outras pessoas também são assaltadas desta maneira: conduzidas pelas ideias. Parece que estou a tentar dormir antes dos dias importante: os que marcaram a minha vida. O primeiro dia antes da preparatória, onde entre os preocupações do que iria vestir no dia seguinte se misturavam com glórias antecipadas com a miúda mais linda das escola. O primeiro dia antes da faculdade, onde todo um mundo havia para explorar, e sentimento de imortalidade existia cegamente.

A mala está feita e contém a minha vida lá dentro. A roupa apressada, medicamentos para doenças que sempre me foram estrangeiras, anti-corpos a fluírem no sangue para males que possam vir. O fato de banho e chinelos para os tempos de folia que se avizinham.Tenho o meu pai, e a minha mãe com um nó na garganta à minha frente. Eu não o vejo, mas preenche a nossa sala. Os primeiros abraços e beijos da despedida começam. As palmas das mãos da minha mãe preenchem o topo das minhas costas, e eu abraço-a com mais força. Ainda não percebi que me vou embora, mas eles já sabem, já sentem. Vou para o aeroporto de Lisboa com o meu pai. O meu pai que sempre entrou comigo nas novas fases da minha vida, vai ficar desta vez. Vou ter de ir sozinho. Houve alturas na sua vida que também o terá feito. Contra o seu pai, à procura da sua vida. Agora sou eu, vou ter de ir sozinho. Vou à tua procura.

No momento que nos deixamos de ver olho à volta e vejo inúmeros abraços que marcam a despedida. As pessoas que vão, e a saudades que deixam naqueles que lhes querem mais. Lágrimas, choros, e risos, e só agora é que o que estava a acontecer se instalou dentro de mim - ia para a terra dos meus pais e das raízes que sempre foram minhas também. A despedida - palavra essa que tão terminal, e tão definitiva. Marca o fim, o inicio  e o entretanto que nos fazem - A despedida.


terça-feira, 6 de novembro de 2012

Aquele beijo eterno

Era uma tarde de sábado chuvoso. Estava sozinho em casa, e preparava-me para um exame de análise de matemática. Na mesa, uma toalha de plástico a sebenta e folhas de A4 que roubei à impressora. Símbolos de integrais, equações, estudos de funções e outras tantas lógicas que aprendi a gostar.

No rádio, um som límpido, claro e bem executado foi invadindo a sala branca.A guitarra era minuciosa e prendia toda a atenção. Pousei o lápis, o sangue foi, pouco a pouco, preenchendo a pele que foi pressionada na madeira áspera.
Aumentei o som, encostei-me e deixei que aquele momento me tomasse por completo. A música era portuguesa, tinha Carlos Paredes lá dentro, tinha um baixo que poderia ter vindo da América. Estava em todo o lado (do que eu conhecia de música) e não a conseguia reduzir a um canto.
Este OVNI que pairava nos meus ouvidos era Dead Combo. Apenas Dead Combo.


quinta-feira, 17 de maio de 2012

Águas Mil

Parar para ver o pôr-de-sol na baía de Luanda era algo que sempre gostei de fazer. Muitas vezes foi sozinho que o fiz. Estava bem assim, a libertar a minha cabeça de pensamentos e apurar os sentidos. Deixar que a luz preenchesse a minha visão cansada, que os cheiros da atmosfera me acalmassem. Houve vezes que pensava nos meus pais, e imaginava os dois na mota do meu pai a caminho de um pôr-de-sol na fortaleza. Havia as outras vezes que me sentia dividido entre o que eu queria fazer e o que estava a acontecer: não estava sozinho, tinha que interromper o silêncio com palavras que tinham de ser proferidas. Foi numa destas ocasiões que conheci alguém que viveu bem Angola. O sol colocou-se atrás do monte que culmina com a um reminiscência do colonialismo, e os azuis do céu iam-se misturando com o que estava à mão. Respeitamos o momento em silêncio e no fim: "Tudo porreiro?"


Estamos a passar por Viana. É a primeira vez que passo por aqui, e apesar da estrada ser mais larga que as outras saídas de Luanda, o caos parece ainda maior. Dezenas de autocarros parados nas bermas a carregar e descarregar mercadorias e passageiros, passagens de peões que se transformam em autênticos pontos de venda, carros com a carroçaria desalinhada relativamente ao eixo das suas direções a criarem faixas a seu belo prazer. O céu cinzento está cinzento e eu não saí para isto: adormeço.


Já dentro do Kwanza Norte, e muito mais desperto, entramos numa paisagem montanhosa com arvóres que se penduram nas bermas da estrada. Subimos tanto que começo a sentir a pressão nos meus ouvidos. No rádio a Tracy Chapman vai contando histórias e nos cantamos com ela.  Vamos neste caminho durante algum tempo até passarmos por N'dalatando. Uma cidade cujo nome é: "a playful twist with the words killing". Quando se chamava Salazar, imagino que por aqui passavam camiões de fazendeiros, meninas a caminho do colégio das freiras, e marcava-se uma distância diferente de Luanda. Quantas vezes passou por aqui o meu avô? Saímos da cidade e continuamos para Kalandula.




A cidade é pequena. A bomba de gasolina, parada no tempo, e a esquadra marcam a entrada. Imagino que a procura deste local, pelas famosas quedas do Duque D'Ávila, faz com que homens deixem a sua terra natal e venham aqui procurar um emprego. Pioneiros do êxodo urbano vindouro em Angola, casarão com as mulheres desta terra e contarão histórias aos seus netos do tempo em que a vila apenas tinha dois hotéis. Os anos que trabalharão em Kalandula tornarão Angola num dos maiores destinos Africanos de turismos. Eu poderei contar aos meus que privei com um destes senhores por breves instantes, mas o que fará os meus olhos brilhar será dizer que trouxe um pouco da terra dele comigo.


Bem antes de chegarmos as cascatas parecia já sentir a frescura que podiam trazer à atmosfera quente. No fundo da minha visão vi traços brancos a contrastarem com o verde das copas das árvores. Brutal!  Estamos tão longe e já vemos, imagina só o tamanho. Lembrei-me de estar com a minha família no Maid of the Mist, protegido por um impermiavel azul e a apreciar as Niagara Falls. Ficamos sentados a sentir a força daquela paisagem imensa. Um arco-íris é desenhado repetidamente  pelo embate da corrente nas rochas. Ficamos mais um pouco. Fecho os olhos: inspiro. Os pensamentos que me ocupam a cabeça juntam-se à intensidade do som, até perderem-se.



Há uns miúdos que caminharam parte da manhã para chegar às cascatas - tenho saudades de andar pelas ruas da baixa como um turista perdido. Pequenos, mas já com responsabilidades para os irmãos e irmãs mais novas que embalam à noite. Vêem para mostrar aos pulas como se vai para as outras cascatas - Musselege. Queria sentar-me com ele na parte de trás de uma pick-up e entrar na sua vida através da palavra. Posso partilhar e colorir os seus sonhos, mas acho que também o iria corromper. Se voltar, quero ter o prazer de ter a sua companhia. As cascatas são bem perto, e ao chegarmos, está um grupo de brasileiros com angolanas. Passamos pelas linhas da música que vai tocando e pelo cheiro do churrasco que estão a preparar e caminhamos para a torrente de água. Parecemos caranguejos enquanto atravessamos as rochas escorregadias. Tiro a camisa e apresso-me para me meter debaixo da água. Nunca tinha sentido o peso de água doce a passar-me pelo corpo.


 Pelo trajeto de regresso vamos passando por sanzalas. Terra batida, poeira, e cubatas: Os mais velhos encostados às paredes das casas,  em cadeiras que a maioria dos europeus jamais conseguiria identificar. As mães tratam das roupas e olham pelos filhos. As crianças pedem bolachas e jogam à bola. A vida aqui é simples.Porque é que complicamos as coisas ?

sexta-feira, 11 de maio de 2012

Gosto dos políticos deste país

Haja felicidade nas nossas vidas e nas pessoas que estão perto de nós, porque a mim cada vez mais escasseia a entidade de ser português. Sou apenas uma pessoa que tem uma família e amigos que quero ver bem. Perdi algures o sonho de ver Portugal nas noticias por boas razões já há algum tempo. Ainda ia acreditando quando aparecia uma noticia a dizer que uma empresa pequena, em tempo de crise, está bem graças à sua capacidade de inovação. Isso hoje é o caminho do cidadão do mundo, mais tarde ou mais cedo todas as empresas terão que o fazer.


Usamos todos livros novos nas escolas porque as editoras adicionaram um paragrafo as edições anteriores. Criamos 30-40 cursos para profissões que não tinham mercado e fomos buscar profissionais que não formamos. Não tivemos professores substitutos e podíamos ir jogar à bola. Nunca nos explicaram que trabalhar durante o verão ajuda a formar carácter e nos dá independência financeira. Sobrevalorizamos casas para poder comprar um mercedes quando mudamos de residência. Agora estamos sem opressão política mas sinto que não me faz diferença. Não conseguimos sair da casa dos nossos pais sem perder qualidade de vida (deixa lá o mercedes). Somos arquitectos, psicólogos, e enfermeiros, mas procuramos emprego fora de Portugal ou num centro comercial.

Passos coelho acabou de dizer na assembleia da república: O desemprego é a principal chaga social do país. (No shit sherlock) E chaga é uma palavra forte. No dicionário podemos ver que a palavra é utilizada para descrever uma dor moral. As dores tem sintomas, os sintomas tem causas e as causas tem resolução. Não foi algo que nos impuseram enquanto país. Foi algo que nós criamos enquanto nação. Gostava de ouvir das resoluções das causas, para acabar com os sintomas e deixar de ter uma dor moral.

É sexta-feira. Quero ir beber um copo com os meus amigos e não falar de política. Quero só sorrir.

sexta-feira, 13 de abril de 2012

A direita aleatória

Era um verão que tínhamos prometido ir à descoberta. Não havia dinheiro para fazer a costa sul africana ou qualquer um dos trajetos do Endless Summer, e por isso, a Costa Vicentina era tão atraente como Jeffrey's Bay. Já tinhas os teus ídolos de surf, e eu apenas partilhava contigo a vontade de ir. Ir para longe do barulho.

- Sem auto-estradas!
- Claro! Nem a A2 até Setúbal fazemos, vamos por dentro.

O sol a brilhar sobre a prancha que escondia a tinta que já saltou, um banco de trás cheio de itens inventariados à pressão e um fogareiro que tínhamos comprado a meias. Não havia direitas nem esquerdas: nós os dois a estrada e umas músicas que nunca mais ouvimos juntos. Mar, muito mar. Maré cheia, maré baixa, mas sempre sonhadores. Acho que deixamos o fogareiro perdido na casa do teu avô.

Namibe: Alguém convence todo um grupo a fazer um caminho diferente para chegarmos a Benguela. Jipes com bidões para ultrapassar os 300 km sem gasolina. Gosto da ideia de fazermos um trajeto onde não há civilização, e começo a evangelizar a ideia. "É a diferença entre chegarmos a Benguela e irmos à praia, e chegarmos apenas à noite." Parecia uma boa razão, mas na realidade não fazia a mínima ideia. Deixamos a última cidade antes do deserto a sul de Angola. Isso chamava-se Moçamedes na nossa altura. Vou a conduzir e a discutir com o co-piloto se devíamos fazer a viagem a 90-100km/h. Vamos de vidros abertos e sem ar condicionado.

Abrandamos a velocidade e começamos a descer uma montanha que me pareceu interminável. Alguém no carro da frente colocou a mão de fora: como os miúdos fazem quando vão aborrecidos no carro com os pais. Olhar para as formas das nuvens enquanto o vento vai levantando e baixando a palma da mão em formas de ondas. Também meto a minha mão de fora, e reparo que todos os condutores fazem o mesmo. Aí ligamos-nos e misturamos com a viagem que estavamos a começar. Alguns quilómetros depois: o mar começa a desenhar-se por entre os montes verdes e tira a respiração. Quando recuperamos o fôlego, estamos de frente para um bloqueio de vacas e bois que não saem da estrada por nada. Peço direções para a cidade com gasolina, e passado alguns dedos de conversa já sei que é daqui a 50 kms - Lucira. Continuamos por uma localidade formada pelo o mar que entrou no vale, Bentiaba, tornando as margens férteis. As plantações fundem-se com as palmeiras e juntam um verde único que contrasta com a paisagem árida. Lembro-me do Nilo, não conheço, mas lembro-me do Nilo.

Deixamos a estrada nova, e não temos outra opção senão ir para a picada. Não era tanto gravilha como imaginava, mas sim arenosa. As rodas de trás vão deslizando, e vou corrigindo a direção para nos mantermos no caminho. A meio as decisões:

-Right or left?!
- Right
- Yes, definitely right.



Nenhum dos três sabe se a esquerda é assim tão diferente da direita, mas temos que fazer um caminho, por isso vamos concordando que aquela direita é que nos vai levar a Benguela. Não tínhamos mapa. Não precisamos de mapas para sermos felizes. O entardecer vai perdendo o fascínio e começa a ser invadido pela noite. As luzes vão indicando o caminho. Não tínhamos mapa, chegamos tarde, mas ficamos com o sentimento irrequieto de aventura dentro da nossa pele.


segunda-feira, 2 de abril de 2012

Raízes em Benguela

Se há sítio que faz parte dos meus sonhos de menino é Benguela: terra longínqua apenas alcançável pelas histórias que me contavam. Histórias dos homens do mar, sugados para longe do sítio que os viu nascer, das procissões religiosas que pautavam os encontros, e do trabalho que incutia a saudade e garantia que as suas famílias cresciam.



Palmeiras: um pontão de pesca de madeira sólida a romper a Baía. O sol reflecte-se no mar-chão como uma pintura que não pode ser criada. A maré parou porque os homens voltam do mar. É tempo de voltar ao conforto da comida preparada com antecipação e à suavidade dos lençóis da cama de fresco.

A serpentear pelas estacas de madeira, e a perturbar os raios de sol preguiçosos: um miúdo de calção e sapatos bem apertados corre num ritmo coordenado. Acordou bem cedo e pensa neste momento desde que se libertou do sono agarrado ao seu corpo. Corre a desbravar a cortina de luz apenas perturbado pelo brilhar estático dos olhos dos peixes. Lá no fundo de camisa axadrezada estão as costas largas que conhece tão bem. Salta e tenta agarrar-se à cintura que os seus braços não conseguem envolver completamente. O braço esquerdo reconhece o toque e coloca-se no ombro frágil. Pés no chão - e o ecoar dos passos começa a desaparecer. Os dedos grandes e achatados passam pelo cabelo curto do miúdo antes de o abraçar. Com o queixo encostado ao pescoço do pai, com apenas um olho aberto, o miúdo olha para o barco com admiração. Ainda não sabe, mas o instrumento de trabalho do pai, irá ser sempre parte da sua vida, e das vidas dentro da sua vida.

Estou de camisa e de calças de ganga coladas ao meu corpo do calor que faz. Subo o muro de um edifício que desenha um porta aviões na areia da Praia Morena e sento-me. Para trás deixo umas duas horas de espera por um jantar culminado em
whisky velho. Fecho os olhos e fico a ouvir as ondas do mar. Gostava que, por momentos, toda história deste sítio me fosse revelado para eu poder contar as histórias que imaginei, de forma fiel. Ligo-te para te dizer que estou na tua terra. Será que sabes que também é a minha terra ? Vou-te contado a visita de uns expatriados que passam por aqui à procura de aventura. Eu também sou um deles. Lá no fundo vejo a tempestade. Calma, longínqua. A brisa vai entrando pelas brechas da minha camisa, e tento explicar-te o quanto a minha mente não consegue racionalizar o que o meu corpo sente. Claro que tu sabes que também é a minha terra! Foste tu que me deste.

Uns verões depois, um sabor amargo de abandono depois, e um reescrever de histórias de felicidade depois: Estou eu. A correr pela calçada protegido pelo muro da ria. Era pequeno, mas ainda me lembro da cor da luz a romper as árvores do jardim. O meu avô caminha atrás de mim, devagar com as mãos dentro do casaco. Caminha sem pressa e eu mantenho-me perto dele, fazendo círculos à volta do seu percurso. Das formas perfeitas, vejo o pontão de cimento, e faço uma diagonal a cortar os muros de tijolo vermelho. Entre os corrimões de metal as minhas mãos agarram uma escota branca e puxo-a com o corpo inclinado para trás. Descubro a sensação de mover algo grande e mantê-la, de forma constante, perto de mim. O meu avô (na altura era só meu), endireitou-me as costas aproximou-se da minha cabeça:

- Sabes porquê é que o barco volta para trás quando largas a corda ?
- Porquê?
- A corrente puxa-o para o sítio.

Era demasiado novo para perceber, que na vida, há uma altura em que a corrente nos coloca no sítio certo.

Largaste a corda e a corrente levou-te. Levou-te a ti, mas deixou a tua força comigo e nas vidas que criarei dentro da minha vida. Levou-te a ti, num fim de tarde laranja com palmeiras plantadas na calçada do paredão, mas gravou-te na minha vida e nas vidas que crias-te dentro da tua vida. Eu prometo agarrar a corda, para manter o que é importante perto. Eu prometo agarrar a corda, para nunca te esquecer. Eu prometo agarrar a corda, para celebrar as vidas dentro da tua vida.