Se há sítio que faz parte dos meus sonhos de menino é Benguela: terra longínqua apenas alcançável pelas histórias que me contavam. Histórias dos homens do mar, sugados para longe do sítio que os viu nascer, das procissões religiosas que pautavam os encontros, e do trabalho que incutia a saudade e garantia que as suas famílias cresciam.

Palmeiras: um pontão de pesca de madeira sólida a romper a Baía. O sol reflecte-se no mar-chão como uma pintura que não pode ser criada. A maré parou porque os homens voltam do mar. É tempo de voltar ao conforto da comida preparada com antecipação e à suavidade dos lençóis da cama de fresco.
A serpentear pelas estacas de madeira, e a perturbar os raios de sol preguiçosos: um miúdo de calção e sapatos bem apertados corre num ritmo coordenado. Acordou bem cedo e pensa neste momento desde que se libertou do sono agarrado ao seu corpo. Corre a desbravar a cortina de luz apenas perturbado pelo brilhar estático dos olhos dos peixes. Lá no fundo de camisa axadrezada estão as costas largas que conhece tão bem. Salta e tenta agarrar-se à cintura que os seus braços não conseguem envolver completamente. O braço esquerdo reconhece o toque e coloca-se no ombro frágil. Pés no chão - e o ecoar dos passos começa a desaparecer. Os dedos grandes e achatados passam pelo cabelo curto do miúdo antes de o abraçar. Com o queixo encostado ao pescoço do pai, com apenas um olho aberto, o miúdo olha para o barco com admiração. Ainda não sabe, mas o instrumento de trabalho do pai, irá ser sempre parte da sua vida, e das vidas dentro da sua vida.
Estou de camisa e de calças de ganga coladas ao meu corpo do calor que faz. Subo o muro de um edifício que desenha um porta aviões na areia da Praia Morena e sento-me. Para trás deixo umas duas horas de espera por um jantar culminado em whisky velho. Fecho os olhos e fico a ouvir as ondas do mar. Gostava que, por momentos, toda história deste sítio me fosse revelado para eu poder contar as histórias que imaginei, de forma fiel. Ligo-te para te dizer que estou na tua terra. Será que sabes que também é a minha terra ? Vou-te contado a visita de uns expatriados que passam por aqui à procura de aventura. Eu também sou um deles. Lá no fundo vejo a tempestade. Calma, longínqua. A brisa vai entrando pelas brechas da minha camisa, e tento explicar-te o quanto a minha mente não consegue racionalizar o que o meu corpo sente. Claro que tu sabes que também é a minha terra! Foste tu que me deste.
Uns verões depois, um sabor amargo de abandono depois, e um reescrever de histórias de felicidade depois: Estou eu. A correr pela calçada protegido pelo muro da ria. Era pequeno, mas ainda me lembro da cor da luz a romper as árvores do jardim. O meu avô caminha atrás de mim, devagar com as mãos dentro do casaco. Caminha sem pressa e eu mantenho-me perto dele, fazendo círculos à volta do seu percurso. Das formas perfeitas, vejo o pontão de cimento, e faço uma diagonal a cortar os muros de tijolo vermelho. Entre os corrimões de metal as minhas mãos agarram uma escota branca e puxo-a com o corpo inclinado para trás. Descubro a sensação de mover algo grande e mantê-la, de forma constante, perto de mim. O meu avô (na altura era só meu), endireitou-me as costas aproximou-se da minha cabeça:
- Sabes porquê é que o barco volta para trás quando largas a corda ?
- Porquê?
- A corrente puxa-o para o sítio.
Era demasiado novo para perceber, que na vida, há uma altura em que a corrente nos coloca no sítio certo.
Largaste a corda e a corrente levou-te. Levou-te a ti, mas deixou a tua força comigo e nas vidas que criarei dentro da minha vida. Levou-te a ti, num fim de tarde laranja com palmeiras plantadas na calçada do paredão, mas gravou-te na minha vida e nas vidas que crias-te dentro da tua vida. Eu prometo agarrar a corda, para manter o que é importante perto. Eu prometo agarrar a corda, para nunca te esquecer. Eu prometo agarrar a corda, para celebrar as vidas dentro da tua vida.

Palmeiras: um pontão de pesca de madeira sólida a romper a Baía. O sol reflecte-se no mar-chão como uma pintura que não pode ser criada. A maré parou porque os homens voltam do mar. É tempo de voltar ao conforto da comida preparada com antecipação e à suavidade dos lençóis da cama de fresco.
A serpentear pelas estacas de madeira, e a perturbar os raios de sol preguiçosos: um miúdo de calção e sapatos bem apertados corre num ritmo coordenado. Acordou bem cedo e pensa neste momento desde que se libertou do sono agarrado ao seu corpo. Corre a desbravar a cortina de luz apenas perturbado pelo brilhar estático dos olhos dos peixes. Lá no fundo de camisa axadrezada estão as costas largas que conhece tão bem. Salta e tenta agarrar-se à cintura que os seus braços não conseguem envolver completamente. O braço esquerdo reconhece o toque e coloca-se no ombro frágil. Pés no chão - e o ecoar dos passos começa a desaparecer. Os dedos grandes e achatados passam pelo cabelo curto do miúdo antes de o abraçar. Com o queixo encostado ao pescoço do pai, com apenas um olho aberto, o miúdo olha para o barco com admiração. Ainda não sabe, mas o instrumento de trabalho do pai, irá ser sempre parte da sua vida, e das vidas dentro da sua vida.
Estou de camisa e de calças de ganga coladas ao meu corpo do calor que faz. Subo o muro de um edifício que desenha um porta aviões na areia da Praia Morena e sento-me. Para trás deixo umas duas horas de espera por um jantar culminado em whisky velho. Fecho os olhos e fico a ouvir as ondas do mar. Gostava que, por momentos, toda história deste sítio me fosse revelado para eu poder contar as histórias que imaginei, de forma fiel. Ligo-te para te dizer que estou na tua terra. Será que sabes que também é a minha terra ? Vou-te contado a visita de uns expatriados que passam por aqui à procura de aventura. Eu também sou um deles. Lá no fundo vejo a tempestade. Calma, longínqua. A brisa vai entrando pelas brechas da minha camisa, e tento explicar-te o quanto a minha mente não consegue racionalizar o que o meu corpo sente. Claro que tu sabes que também é a minha terra! Foste tu que me deste.
Uns verões depois, um sabor amargo de abandono depois, e um reescrever de histórias de felicidade depois: Estou eu. A correr pela calçada protegido pelo muro da ria. Era pequeno, mas ainda me lembro da cor da luz a romper as árvores do jardim. O meu avô caminha atrás de mim, devagar com as mãos dentro do casaco. Caminha sem pressa e eu mantenho-me perto dele, fazendo círculos à volta do seu percurso. Das formas perfeitas, vejo o pontão de cimento, e faço uma diagonal a cortar os muros de tijolo vermelho. Entre os corrimões de metal as minhas mãos agarram uma escota branca e puxo-a com o corpo inclinado para trás. Descubro a sensação de mover algo grande e mantê-la, de forma constante, perto de mim. O meu avô (na altura era só meu), endireitou-me as costas aproximou-se da minha cabeça:
- Sabes porquê é que o barco volta para trás quando largas a corda ?
- Porquê?
- A corrente puxa-o para o sítio.
Era demasiado novo para perceber, que na vida, há uma altura em que a corrente nos coloca no sítio certo.
Largaste a corda e a corrente levou-te. Levou-te a ti, mas deixou a tua força comigo e nas vidas que criarei dentro da minha vida. Levou-te a ti, num fim de tarde laranja com palmeiras plantadas na calçada do paredão, mas gravou-te na minha vida e nas vidas que crias-te dentro da tua vida. Eu prometo agarrar a corda, para manter o que é importante perto. Eu prometo agarrar a corda, para nunca te esquecer. Eu prometo agarrar a corda, para celebrar as vidas dentro da tua vida.

Forte ;)
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