Quando chegava a Angola gostava de baixar sempre o meu vidro e sentir os cheiros que se espalham pela capital caótica. Dióxido de carbono ou lixo, não dava para ser muito seletivo, mas a ideia de ser cativado por uma realidade diferente tornava isto agradável . Vi uma vez num documentário um americano a descrever são paulo através do cheiro que se descobre de janela aberta, e agora percebo-o perfeitamente. Devias experimentar sentir uma terra assim.
Desta vez quando cheguei apanhei (para variar) um trânsito interminável. É importante que percebas que este trânsito não é organizado. Não é uma A2 com um sentido de trânsito e faixas ordenadas, com pessoas com o sindrome de má disposição matinal e o músculo da tíbia tenso de tanto usar a embraiagem. É caótico: carros em sentidos proibidos, candongas em manobras evasivas por linhas que só eles conhecem, buracos (crateras!) que rompem as estradas. Pessoas: pessoas a vender de tão parado que o trânsito está. Pessoas a comprar para rentabilizar o tempo que passam enfiados num carro, antecipando compras e fugindo a filas de supermercado. Já consegui numa hora e meio de trânsito comprar bananas, um carregador para telemóvel, cheirinho para o carro e um ananás. Diz-me em que estrada Portuguesa, conseguimos obter tal leque de produtos ?
Quando não há nada para comprar, o melhor é procurar uma distração. Ouvir música, falar com a pessoa que está ao nosso lado sobre as diferenças entre a pequena ex-metrópole e a gigante ex-colónia (são ambas "ex" porque hoje o conjunto de características que partilhamos resumem-se à paixão pelo futebol e à língua). Quando não me apetece fazer nada disto, gosto de esquecer que estou no meio desta confusão toda. Acendo um cigarro, encosto-me para trás e aprecio o que está a acontecer como se fosse um pássaro a sobrevoar sobre aquilo tudo.
Desta vez não pude acender um cigarro, por cortesia às restantes pessoas que estavam no carro. O relógio começou a escorregar do meu pulso e tirei-o para dentro da mala que tinha à frente. Quando baixei o vidro senti-me sufocado. O cheiro incrível que me tinham deixado no corpo foi substituído pelo suor que o calor provocava.
Os meus pais disseram-me durante anos que o cheiro da terra vermelha molhada é memorável. E para eles, isso é uma verdade absoluta porque, desde que me lembro, é assim que me descrevem Angola. Nunca encontrei essa imagem romântica que parece estar nos seio da memória dos meus pais. Cada vez que tento viver essa sensação como eles a descrevem, os milhares de carros da cidade deturpam qualquer hipótese de me aproximar desse momento. Que frustrante!
Luanda encanta, mas também cansa.
Quando vês uma mulemba com o seu tronco desproporcionado para os ramos frágeis que ostentam a múkua (esse fruto áspero e amargo), sentes-te deslocado. As rectas intermináveis que te levam aos sítios que visitas enquanto estrangeiro desta realidade, apelam à tua sede de grandeza. E eu gosto de sentir-me assim. Livre: uma pequena partícula num enredo mágico. Mas nada, absolutamente nada que me leve perto do cheiro da terra vermelha molhada, gravada eternamente na memória dos meus pais.
Meu irmão,
ResponderEliminarMuito Bom. Vejo que corro o risco de ter um Gonçalo Cadilhe como amigo ;) Agora durante as intermináveis viagens escreves umas crónicas, eu segui-las-ei ;)
Um abraço e até já