O verão está a acabar. Eu consigo
senti-lo. A música fora de época toca no restaurante de sushi irrita-me. O
empregado continua inconsciente da mudança enquanto fecha as conversas
inacabadas e limpa as memórias partilhadas. O sol ainda mantém a noite clara
que se veste de negro para me lembrar que o verão está a acabar. Tenho os pés
em ferida dos sapatos do fato - esses bastardos que também me relembram do fim.
A inabalável certeza que este momento chegou podia ser marcada por uma música
diferente, mas não, quis o destino que fosse uma voz despida de todo o
conteúdo.
Hoje de manhã senti
que o sol perdeu a sua intensidade, como quem se prepara para tempos mais
relaxados. Os reflexos que resultam dos encontros com os pontos no seu caminho
eram pouco caprichados e seguiam momentaneamente desinteressados. Deixou de
variar das mil e uma maneiras que sabe que me pode presentear - deve ser para
me lembrar que o verão está a acabar.
Durante a tarde
percebi que o vento está a recuperar de um verão que escolheu para tirar
férias. Faz-me imaginar um miúdo que foi a terra dos avós no verão e agora
volta para as brincadeiras da rua dele. Desadequado e perdido do que lhe era
conhecido. Passa pelos arbustos ao de leve, faz tangentes mal calculadas às
pessoas e não ganha balanço nas paredes com que choca. O vento que durante
grande parte do último inverno fazia estas tarefas todas de forma exímia. O
verão está a acabar e o vento vai voltar à sua precisão.
Agora estou aqui. Na
varanda que tem que anunciar a todos os meus vizinhos que estou lá fora a fumar
um cigarro. Estou perdido neste sentimento de perda do que está para vir,
enquanto olho para cima e vejo um homem e uma mulher sentados à conversa. Daqui
parece que estão a falar com os olhos, enquanto os braços dele lhe tocam no
ombro, levemente. Estão a
falar das coisas mais banais das vidas de todos os nós. Deviam
estar preocupados com a chegada deste momento, mas continuam nas caricias das
conversas intimas que só a eles lhes pertencem. Ela levanta-se para contemplar
a noite clara, e ele fica deitado a contemplá-la. Eu estou aqui, tal voyeur desajeitado que apenas se
interessa no diálogo. Ele está deitado a vê-la por trás. De certo que na sua
imaginação, correm cenários que lhe dirá a imensidão do amor que ela lhe fez
encontrar. Devia estar preocupado com a chegada deste momento, mas
continua a observá-la e a sonhar. Beijam-se sem que me aperceba o que se
passou entretanto, porque sou assaltado novamente pela certeza que o verão está
a acabar. Perdem-se e encontram-se um no outro enquanto as cortinas
fecham.
Continuo aqui.
Prefira não sentir que o verão está a acabar. Acho que as estações não devem
ser celebradas:
- Sabias que hoje é o
primeiro dia da primavera.
- Não sabia! Já se nota nas
flores.
Não. Continua igual a
ontem, mas diferente do que estava à três meses atrás. Comparativamente a esse
dia está diferente. Sim, comparativamente, está claramente diferente. Continua
igual a ontem - podia ser o último dia da primavera que eu não teria notado.
Contudo o verão está a acabar e eu estou aqui a ponderar nas consequências. Não
pedi para participar neste momento. Por mim, uma gaivota podia tomar esta
poltrona de omnisciência e ser guardiã das estações. Por mim estava lá em cima:
no lugar do casal dos andares de cima.