Parar para ver o pôr-de-sol na baía de Luanda era algo que sempre gostei de fazer. Muitas vezes foi sozinho que o fiz. Estava bem assim, a libertar a minha cabeça de pensamentos e apurar os sentidos. Deixar que a luz preenchesse a minha visão cansada, que os cheiros da atmosfera me acalmassem. Houve vezes que pensava nos meus pais, e imaginava os dois na mota do meu pai a caminho de um pôr-de-sol na fortaleza. Havia as outras vezes que me sentia dividido entre o que eu queria fazer e o que estava a acontecer: não estava sozinho, tinha que interromper o silêncio com palavras que tinham de ser proferidas. Foi numa destas ocasiões que conheci alguém que viveu bem Angola. O sol colocou-se atrás do monte que culmina com a um reminiscência do colonialismo, e os azuis do céu iam-se misturando com o que estava à mão. Respeitamos o momento em silêncio e no fim: "Tudo porreiro?"
Estamos a passar por Viana. É a primeira vez que passo por aqui, e apesar da estrada ser mais larga que as outras saídas de Luanda, o caos parece ainda maior. Dezenas de autocarros parados nas bermas a carregar e descarregar mercadorias e passageiros, passagens de peões que se transformam em autênticos pontos de venda, carros com a carroçaria desalinhada relativamente ao eixo das suas direções a criarem faixas a seu belo prazer. O céu cinzento está cinzento e eu não saí para isto: adormeço.
Já dentro do Kwanza Norte, e muito mais desperto, entramos numa paisagem montanhosa com arvóres que se penduram nas bermas da estrada. Subimos tanto que começo a sentir a pressão nos meus ouvidos. No rádio a Tracy Chapman vai contando histórias e nos cantamos com ela. Vamos neste caminho durante algum tempo até passarmos por N'dalatando. Uma cidade cujo nome é: "a playful twist with the words killing". Quando se chamava Salazar, imagino que por aqui passavam camiões de fazendeiros, meninas a caminho do colégio das freiras, e marcava-se uma distância diferente de Luanda. Quantas vezes passou por aqui o meu avô? Saímos da cidade e continuamos para Kalandula.
A cidade é pequena. A bomba de gasolina, parada no tempo, e a esquadra marcam a entrada. Imagino que a procura deste local, pelas famosas quedas do Duque D'Ávila, faz com que homens deixem a sua terra natal e venham aqui procurar um emprego. Pioneiros do êxodo urbano vindouro em Angola, casarão com as mulheres desta terra e contarão histórias aos seus netos do tempo em que a vila apenas tinha dois hotéis. Os anos que trabalharão em Kalandula tornarão Angola num dos maiores destinos Africanos de turismos. Eu poderei contar aos meus que privei com um destes senhores por breves instantes, mas o que fará os meus olhos brilhar será dizer que trouxe um pouco da terra dele comigo.
Bem antes de chegarmos as cascatas parecia já sentir a frescura que podiam trazer à atmosfera quente. No fundo da minha visão vi traços brancos a contrastarem com o verde das copas das árvores. Brutal! Estamos tão longe e já vemos, imagina só o tamanho. Lembrei-me de estar com a minha família no Maid of the Mist, protegido por um impermiavel azul e a apreciar as Niagara Falls. Ficamos sentados a sentir a força daquela paisagem imensa. Um arco-íris é desenhado repetidamente pelo embate da corrente nas rochas. Ficamos mais um pouco. Fecho os olhos: inspiro. Os pensamentos que me ocupam a cabeça juntam-se à intensidade do som, até perderem-se.

Há uns miúdos que caminharam parte da manhã para chegar às cascatas - tenho saudades de andar pelas ruas da baixa como um turista perdido. Pequenos, mas já com responsabilidades para os irmãos e irmãs mais novas que embalam à noite. Vêem para mostrar aos pulas como se vai para as outras cascatas - Musselege. Queria sentar-me com ele na parte de trás de uma pick-up e entrar na sua vida através da palavra. Posso partilhar e colorir os seus sonhos, mas acho que também o iria corromper. Se voltar, quero ter o prazer de ter a sua companhia. As cascatas são bem perto, e ao chegarmos, está um grupo de brasileiros com angolanas. Passamos pelas linhas da música que vai tocando e pelo cheiro do churrasco que estão a preparar e caminhamos para a torrente de água. Parecemos caranguejos enquanto atravessamos as rochas escorregadias. Tiro a camisa e apresso-me para me meter debaixo da água. Nunca tinha sentido o peso de água doce a passar-me pelo corpo.
Pelo trajeto de regresso vamos passando por sanzalas. Terra batida, poeira, e cubatas: Os mais velhos encostados às paredes das casas, em cadeiras que a maioria dos europeus jamais conseguiria identificar. As mães tratam das roupas e olham pelos filhos. As crianças pedem bolachas e jogam à bola. A vida aqui é simples.Porque é que complicamos as coisas ?
Estamos a passar por Viana. É a primeira vez que passo por aqui, e apesar da estrada ser mais larga que as outras saídas de Luanda, o caos parece ainda maior. Dezenas de autocarros parados nas bermas a carregar e descarregar mercadorias e passageiros, passagens de peões que se transformam em autênticos pontos de venda, carros com a carroçaria desalinhada relativamente ao eixo das suas direções a criarem faixas a seu belo prazer. O céu cinzento está cinzento e eu não saí para isto: adormeço.
Já dentro do Kwanza Norte, e muito mais desperto, entramos numa paisagem montanhosa com arvóres que se penduram nas bermas da estrada. Subimos tanto que começo a sentir a pressão nos meus ouvidos. No rádio a Tracy Chapman vai contando histórias e nos cantamos com ela. Vamos neste caminho durante algum tempo até passarmos por N'dalatando. Uma cidade cujo nome é: "a playful twist with the words killing". Quando se chamava Salazar, imagino que por aqui passavam camiões de fazendeiros, meninas a caminho do colégio das freiras, e marcava-se uma distância diferente de Luanda. Quantas vezes passou por aqui o meu avô? Saímos da cidade e continuamos para Kalandula.
A cidade é pequena. A bomba de gasolina, parada no tempo, e a esquadra marcam a entrada. Imagino que a procura deste local, pelas famosas quedas do Duque D'Ávila, faz com que homens deixem a sua terra natal e venham aqui procurar um emprego. Pioneiros do êxodo urbano vindouro em Angola, casarão com as mulheres desta terra e contarão histórias aos seus netos do tempo em que a vila apenas tinha dois hotéis. Os anos que trabalharão em Kalandula tornarão Angola num dos maiores destinos Africanos de turismos. Eu poderei contar aos meus que privei com um destes senhores por breves instantes, mas o que fará os meus olhos brilhar será dizer que trouxe um pouco da terra dele comigo.
Bem antes de chegarmos as cascatas parecia já sentir a frescura que podiam trazer à atmosfera quente. No fundo da minha visão vi traços brancos a contrastarem com o verde das copas das árvores. Brutal! Estamos tão longe e já vemos, imagina só o tamanho. Lembrei-me de estar com a minha família no Maid of the Mist, protegido por um impermiavel azul e a apreciar as Niagara Falls. Ficamos sentados a sentir a força daquela paisagem imensa. Um arco-íris é desenhado repetidamente pelo embate da corrente nas rochas. Ficamos mais um pouco. Fecho os olhos: inspiro. Os pensamentos que me ocupam a cabeça juntam-se à intensidade do som, até perderem-se.
Há uns miúdos que caminharam parte da manhã para chegar às cascatas - tenho saudades de andar pelas ruas da baixa como um turista perdido. Pequenos, mas já com responsabilidades para os irmãos e irmãs mais novas que embalam à noite. Vêem para mostrar aos pulas como se vai para as outras cascatas - Musselege. Queria sentar-me com ele na parte de trás de uma pick-up e entrar na sua vida através da palavra. Posso partilhar e colorir os seus sonhos, mas acho que também o iria corromper. Se voltar, quero ter o prazer de ter a sua companhia. As cascatas são bem perto, e ao chegarmos, está um grupo de brasileiros com angolanas. Passamos pelas linhas da música que vai tocando e pelo cheiro do churrasco que estão a preparar e caminhamos para a torrente de água. Parecemos caranguejos enquanto atravessamos as rochas escorregadias. Tiro a camisa e apresso-me para me meter debaixo da água. Nunca tinha sentido o peso de água doce a passar-me pelo corpo.
Pelo trajeto de regresso vamos passando por sanzalas. Terra batida, poeira, e cubatas: Os mais velhos encostados às paredes das casas, em cadeiras que a maioria dos europeus jamais conseguiria identificar. As mães tratam das roupas e olham pelos filhos. As crianças pedem bolachas e jogam à bola. A vida aqui é simples.Porque é que complicamos as coisas ?
