sexta-feira, 13 de abril de 2012

A direita aleatória

Era um verão que tínhamos prometido ir à descoberta. Não havia dinheiro para fazer a costa sul africana ou qualquer um dos trajetos do Endless Summer, e por isso, a Costa Vicentina era tão atraente como Jeffrey's Bay. Já tinhas os teus ídolos de surf, e eu apenas partilhava contigo a vontade de ir. Ir para longe do barulho.

- Sem auto-estradas!
- Claro! Nem a A2 até Setúbal fazemos, vamos por dentro.

O sol a brilhar sobre a prancha que escondia a tinta que já saltou, um banco de trás cheio de itens inventariados à pressão e um fogareiro que tínhamos comprado a meias. Não havia direitas nem esquerdas: nós os dois a estrada e umas músicas que nunca mais ouvimos juntos. Mar, muito mar. Maré cheia, maré baixa, mas sempre sonhadores. Acho que deixamos o fogareiro perdido na casa do teu avô.

Namibe: Alguém convence todo um grupo a fazer um caminho diferente para chegarmos a Benguela. Jipes com bidões para ultrapassar os 300 km sem gasolina. Gosto da ideia de fazermos um trajeto onde não há civilização, e começo a evangelizar a ideia. "É a diferença entre chegarmos a Benguela e irmos à praia, e chegarmos apenas à noite." Parecia uma boa razão, mas na realidade não fazia a mínima ideia. Deixamos a última cidade antes do deserto a sul de Angola. Isso chamava-se Moçamedes na nossa altura. Vou a conduzir e a discutir com o co-piloto se devíamos fazer a viagem a 90-100km/h. Vamos de vidros abertos e sem ar condicionado.

Abrandamos a velocidade e começamos a descer uma montanha que me pareceu interminável. Alguém no carro da frente colocou a mão de fora: como os miúdos fazem quando vão aborrecidos no carro com os pais. Olhar para as formas das nuvens enquanto o vento vai levantando e baixando a palma da mão em formas de ondas. Também meto a minha mão de fora, e reparo que todos os condutores fazem o mesmo. Aí ligamos-nos e misturamos com a viagem que estavamos a começar. Alguns quilómetros depois: o mar começa a desenhar-se por entre os montes verdes e tira a respiração. Quando recuperamos o fôlego, estamos de frente para um bloqueio de vacas e bois que não saem da estrada por nada. Peço direções para a cidade com gasolina, e passado alguns dedos de conversa já sei que é daqui a 50 kms - Lucira. Continuamos por uma localidade formada pelo o mar que entrou no vale, Bentiaba, tornando as margens férteis. As plantações fundem-se com as palmeiras e juntam um verde único que contrasta com a paisagem árida. Lembro-me do Nilo, não conheço, mas lembro-me do Nilo.

Deixamos a estrada nova, e não temos outra opção senão ir para a picada. Não era tanto gravilha como imaginava, mas sim arenosa. As rodas de trás vão deslizando, e vou corrigindo a direção para nos mantermos no caminho. A meio as decisões:

-Right or left?!
- Right
- Yes, definitely right.



Nenhum dos três sabe se a esquerda é assim tão diferente da direita, mas temos que fazer um caminho, por isso vamos concordando que aquela direita é que nos vai levar a Benguela. Não tínhamos mapa. Não precisamos de mapas para sermos felizes. O entardecer vai perdendo o fascínio e começa a ser invadido pela noite. As luzes vão indicando o caminho. Não tínhamos mapa, chegamos tarde, mas ficamos com o sentimento irrequieto de aventura dentro da nossa pele.


segunda-feira, 2 de abril de 2012

Raízes em Benguela

Se há sítio que faz parte dos meus sonhos de menino é Benguela: terra longínqua apenas alcançável pelas histórias que me contavam. Histórias dos homens do mar, sugados para longe do sítio que os viu nascer, das procissões religiosas que pautavam os encontros, e do trabalho que incutia a saudade e garantia que as suas famílias cresciam.



Palmeiras: um pontão de pesca de madeira sólida a romper a Baía. O sol reflecte-se no mar-chão como uma pintura que não pode ser criada. A maré parou porque os homens voltam do mar. É tempo de voltar ao conforto da comida preparada com antecipação e à suavidade dos lençóis da cama de fresco.

A serpentear pelas estacas de madeira, e a perturbar os raios de sol preguiçosos: um miúdo de calção e sapatos bem apertados corre num ritmo coordenado. Acordou bem cedo e pensa neste momento desde que se libertou do sono agarrado ao seu corpo. Corre a desbravar a cortina de luz apenas perturbado pelo brilhar estático dos olhos dos peixes. Lá no fundo de camisa axadrezada estão as costas largas que conhece tão bem. Salta e tenta agarrar-se à cintura que os seus braços não conseguem envolver completamente. O braço esquerdo reconhece o toque e coloca-se no ombro frágil. Pés no chão - e o ecoar dos passos começa a desaparecer. Os dedos grandes e achatados passam pelo cabelo curto do miúdo antes de o abraçar. Com o queixo encostado ao pescoço do pai, com apenas um olho aberto, o miúdo olha para o barco com admiração. Ainda não sabe, mas o instrumento de trabalho do pai, irá ser sempre parte da sua vida, e das vidas dentro da sua vida.

Estou de camisa e de calças de ganga coladas ao meu corpo do calor que faz. Subo o muro de um edifício que desenha um porta aviões na areia da Praia Morena e sento-me. Para trás deixo umas duas horas de espera por um jantar culminado em
whisky velho. Fecho os olhos e fico a ouvir as ondas do mar. Gostava que, por momentos, toda história deste sítio me fosse revelado para eu poder contar as histórias que imaginei, de forma fiel. Ligo-te para te dizer que estou na tua terra. Será que sabes que também é a minha terra ? Vou-te contado a visita de uns expatriados que passam por aqui à procura de aventura. Eu também sou um deles. Lá no fundo vejo a tempestade. Calma, longínqua. A brisa vai entrando pelas brechas da minha camisa, e tento explicar-te o quanto a minha mente não consegue racionalizar o que o meu corpo sente. Claro que tu sabes que também é a minha terra! Foste tu que me deste.

Uns verões depois, um sabor amargo de abandono depois, e um reescrever de histórias de felicidade depois: Estou eu. A correr pela calçada protegido pelo muro da ria. Era pequeno, mas ainda me lembro da cor da luz a romper as árvores do jardim. O meu avô caminha atrás de mim, devagar com as mãos dentro do casaco. Caminha sem pressa e eu mantenho-me perto dele, fazendo círculos à volta do seu percurso. Das formas perfeitas, vejo o pontão de cimento, e faço uma diagonal a cortar os muros de tijolo vermelho. Entre os corrimões de metal as minhas mãos agarram uma escota branca e puxo-a com o corpo inclinado para trás. Descubro a sensação de mover algo grande e mantê-la, de forma constante, perto de mim. O meu avô (na altura era só meu), endireitou-me as costas aproximou-se da minha cabeça:

- Sabes porquê é que o barco volta para trás quando largas a corda ?
- Porquê?
- A corrente puxa-o para o sítio.

Era demasiado novo para perceber, que na vida, há uma altura em que a corrente nos coloca no sítio certo.

Largaste a corda e a corrente levou-te. Levou-te a ti, mas deixou a tua força comigo e nas vidas que criarei dentro da minha vida. Levou-te a ti, num fim de tarde laranja com palmeiras plantadas na calçada do paredão, mas gravou-te na minha vida e nas vidas que crias-te dentro da tua vida. Eu prometo agarrar a corda, para manter o que é importante perto. Eu prometo agarrar a corda, para nunca te esquecer. Eu prometo agarrar a corda, para celebrar as vidas dentro da tua vida.