segunda-feira, 26 de março de 2012

Terra vermelha molhada


Quando chegava a Angola gostava de baixar sempre o meu vidro e sentir os cheiros que se espalham pela capital caótica. Dióxido de carbono ou lixo, não dava para ser muito seletivo, mas a ideia de ser cativado por uma realidade diferente tornava isto agradável . Vi uma vez num documentário um americano a descrever são paulo através do cheiro que se descobre de janela aberta, e agora percebo-o perfeitamente. Devias experimentar sentir uma terra assim.

Desta vez quando cheguei apanhei (para variar) um trânsito interminável. É importante que percebas que este trânsito não é organizado. Não é uma A2 com um sentido de trânsito e faixas ordenadas, com pessoas com o sindrome de má disposição matinal e o músculo da tíbia tenso de tanto usar a embraiagem. É caótico: carros em sentidos proibidos, candongas em manobras evasivas por linhas que só eles conhecem, buracos (crateras!) que rompem as estradas. Pessoas: pessoas a vender de tão parado que o trânsito está. Pessoas a comprar para rentabilizar o tempo que passam enfiados num carro, antecipando compras e fugindo a filas de supermercado. Já consegui numa hora e meio de trânsito comprar bananas, um carregador para telemóvel, cheirinho para o carro e um ananás. Diz-me em que estrada Portuguesa, conseguimos obter tal leque de produtos ?

Quando não há nada para comprar, o melhor é procurar uma distração. Ouvir música, falar com a pessoa que está ao nosso lado sobre as diferenças entre a pequena ex-metrópole e a gigante ex-colónia (são ambas "ex" porque hoje o conjunto de características que partilhamos resumem-se à paixão pelo futebol e à língua). Quando não me apetece fazer nada disto, gosto de esquecer que estou no meio desta confusão toda. Acendo um cigarro, encosto-me para trás e aprecio o que está a acontecer como se fosse um pássaro a sobrevoar sobre aquilo tudo.

Desta vez não pude acender um cigarro, por cortesia às restantes pessoas que estavam no carro. O relógio começou a escorregar do meu pulso e tirei-o para dentro da mala que tinha à frente. Quando baixei o vidro senti-me sufocado. O cheiro incrível que me tinham deixado no corpo foi substituído pelo suor que o calor provocava.

Os meus pais disseram-me durante anos que o cheiro da terra vermelha molhada é memorável. E para eles, isso é uma verdade absoluta porque, desde que me lembro, é assim que me descrevem Angola. Nunca encontrei essa imagem romântica que parece estar nos seio da memória dos meus pais. Cada vez que tento viver essa sensação como eles a descrevem, os milhares de carros da cidade deturpam qualquer hipótese de me aproximar desse momento. Que frustrante!

Luanda encanta, mas também cansa.

Quando sais da cidade e sentes o cheiro de savanas intermináveis a invadir-te o olfacto, sentes um verdadeiro sentido de descoberta. Quando vês uma trovada à distância que dentro de minutos ilumina o teu trajeto como nunca imaginaste, sentes-te aventureiro.
Quando vês uma mulemba com o seu tronco desproporcionado para os ramos frágeis que ostentam a múkua (esse fruto áspero e amargo), sentes-te deslocado. As rectas intermináveis que te levam aos sítios que visitas enquanto estrangeiro desta realidade, apelam à tua sede de grandeza. E eu gosto de sentir-me assim. Livre: uma pequena partícula num enredo mágico. Mas nada, absolutamente nada que me leve perto do cheiro da terra vermelha molhada, gravada eternamente na memória dos meus pais.